29/06/2015
Da época do Império à era PT, o Brasil sob análise de um dos nomes mais respeitados da antropologia
Sara Maia
Roberto Damatta é um dos mais
respeitados antropólogos brasileiros, autor de vários livros,
palestrante com agenda cheia, e desde os anos 1960 tenta entender a alma
nacional
O olhar de Roberto da
Matta sobre as coisas do Brasil ajuda, pelos fundamentos que apresenta, a
tentar entender crises como a que o País enfrenta no momento. Um dos
nomes mais respeitados da antropologia nacional, com alcance mundial,
ele mergulha nas explicações de uma maneira muito própria, e profunda,
como resultado de 40 anos de estudo permanente sobre a alma do
brasileiro. Sua análise sobre o que acontece hoje, por exemplo, obriga
um retorno ao início da história, ainda ao tempo do Império, onde,
segundo ele, se consegue encontrar uma boa parte das justificativas para
problemas que até hoje servem de empecilho à ação política nacional.
Crítico
forte dos governos do PT, especialmente do atual, defensor das cotas,
contrário à redução da maioridade penal, ele apresenta fundamentos para
cada um dos temas colocados à sua frente. São opiniões fortes, algumas
polêmicas. Roberto da Matta conversou com
O POVO
na sua última passagem por Fortaleza, em meados de junho, quando esteve
na cidade para uma palestra sobre “Cidadania Ativa, que inaugurou curso
da Fundação Demócrito Rocha, em parceria com o Tribunal de Contas do
Estado (TCE) sobre Controle Cidadão. Confira os trechos principais da
conversa.
O POVO –
Como alguém que tenta entender o País e seu povo há pelo menos 40 anos,
como estudioso de sua alma, o senhor consegue explicar objetivamente
hoje o que é o Brasil?
Roberto DaMatta
– Meu caro, primeiro é preciso dizer uma coisa que considero
importante: de qual o lugar que eu falo? Um historiador fala de uma
maneira, um antropólogo social, cultural, como é meu caso, fala de outra
maneira, um cientista político de outra, o economista fala muito de uma
maneira conjuntural, há uma ideia de que na economia você produz
resultados muito mais imediatos do que na política, por exemplo. Basta
comparar o ajuste fiscal que se discute no Congresso com a reforma
política, na qual você não toca em nenhum problema que, do meu ponto de
vista, deveria ser tocado. Eu construí um trabalho que mostra como um
antropólogo olha o Brasil, então, como é que eu olhei o Brasil? A
maneira mais clara para explicar minha posição é perceber que o Brasil,
como todo Estado nacional moderno, apresenta duas leituras possíveis,
básicas. Não são exclusivas, não estou dizendo isso, mas possíveis. Uma é
enxergá-lo como Estado nacional, que tem território, que é o que
caracteriza a Nação moderna. Esse território é a propriedade do Brasil,
ele é soberano, as leis que valem neste território valem para o Brasil,
mas não valem para o Paraguai, não valem para a Inglaterra, os Estados
Unidos, então, há uma diferenciação entre os países, tem uma moeda, há
uma moeda brasileira, uma bandeira nacional, tem hino e tem as
instituições políticas, o Congresso Nacional com suas características,
tempo de eleição etc. Esse Brasil como Estado nacional é uma coisa e o
Brasil visto como uma sociedade e um conjunto de valores, que foi como
procurei olhar. Por isso é que quando escrevi um livrinho na década de
(19)80 chamado ‘A casa e a rua’, teve muita gente que não entendeu. O
que nós classificamos como rua, em geral, é isso que tem a ver com
governo, com leis universais, com regras que valem para todos, mesmo na
época em que o Brasil não era uma República, era uma aristocracia. Este é
um ponto importante: o que caracteriza as sociedades aristocráticas, as
sociedades monárquicas e as sociedades que não são republicanas? É a
imobilidade social! Numa sociedade aristocrática, se você nasce Barão
vai, provavelmente, morrer Barão, se nasce pessoa comum vai morrer
pessoa comum. Já nas sociedades republicanas você tem uma regra de
igualdade de oportunidades e de igualdade perante a lei, aqui a lei vale
para todos, que é radicalmente diferente. No Brasil monárquico, um
padre era julgado por leis eclesiásticas, enquanto um escravo não, ele
era possuído por um senhor.
OP
– Mas, professor, a pergunta tem o sentido de entender quais as
características fundamentais desse contexto que o senhor acaba de
apresentar ficaram como marca do Brasil? O que é que explicam do País?
DaMatta
– É simples: aristocracia, uma mentalidade aristocrática, uma
mentalidade patriarcal, uma mentalidade escravocrata, uma mentalidade
hierárquica, onde cada um deve saber o seu lugar, ‘pega o meu braço mas
não vai muito adiante’, ‘fala quando eu deixar’, que é o que caracteriza
a política brasileira até hoje. Todo o coronelismo brasileiro é baseado
nisso, os partidos políticos são assim, é a discussão que está no
Congresso. Se abre para o partido ou se tem voto distrital, onde pode
aparecer uma pessoa como eu ou qualquer um de vocês como candidato. Quem
é Roberto DaMatta? Representa o quê? Representa algum partido? Isso é
ruim! Por que os partidos vão perder poder? Qual é o poder dos partidos?
OP – Essa característica...
DaMatta
– Não, vocês são jornalistas. Qual é a mensagem dos partidos? O que é
que os partidos pretendem fazer com o Brasil? Qual o projeto que a gente
tem hoje na mesa de um partido como o PT, por exemplo? Qual é o projeto
do PSDB? Qual é o projeto do PH, do PHC, sei lá, porque são tantos que
já nem sei mais. O que eu estou tentando configurar é o que caracteriza o
Brasil, então você tem um lado do Brasil extremamente pesado que não é
aquilatado, que a gente acha que já passou, que é de escravidão, de
tortura, de violência e que é de um autoritarismo absurdo. Isso nunca
foi discutido no Brasil politicamente, nunca foi politizado, este é um
lado. O outro lado é a adoção dos princípios republicanos a partir do
movimento da Abolição, mas, o que é uma República? A República é a
sociedade em que tudo pertence a todos, onde há o espaço público e o
espaço privado, sendo que o espaço público é o espaço englobante, no
qual todos são iguais perante a lei. Exatamente a coisa mais difícil de
aplicar no Brasil.
OP – O senhor acha...
DaMatta
– Como é que nós nos defendemos então, diante dessas duas vertentes?
Temos a vertente aristocrática, de um lado, e a vertente republicana de
outro. O que nós fizemos? Nós criamos um Judiciário que é inteiramente
aristocrático e uma lei que explica, vale, justifica, é contorcida, para
justificar tudo!
OP – O Brasil, para o senhor, ainda não chegou efetivamente a República?
DaMatta – Não, não, o Brasil é um país republicano.
OP – Formalmente, apenas?
DaMatta
– A questão não é o formalmente. O Brasil tem uma prática republicana,
só que esta prática não é englobante, ela não é hegemônica, como a
prática aristocrática também não é. O que é você tem, então? Tem uma
luta implícita, e algumas vezes até explícita, entre a vertente
aristocrática e a vertente hegemônica... Nós, hoje, temos o Congresso
discutindo se regula ou desregula, regula mais ou regula menos, mas a
questão é: por quê tem que regular? Porque nós somos contra, nós temos
uma prevenção absoluta contra mercado. Por quê? Porque nós não gostamos
de mérito, não gostamos de competição.
OP – A questão das cotas seria resultado dessa dificuldade de aceitar a meritocracia?
DaMatta
– Sou inteiramente favorável às cotas. Recebi, por isso, cacetada de
todos os meus colegas antropólogos sob o argumento de que eu não entendo
o problema racial. Eu entendo o nosso problema racial, sei que é
diferente do americano, mas acho as cotas fundamentais. Muitas vezes
você precisa criar desigualdade para criar igualdade, assim como a
igualdade também cria desigualdade. Há um dialética complexa entre
sistemas de grande mobilidade social e sistemas em que você tem castas,
segmentos socialmente rígidos. É o caso do Nordeste brasileiro... É tudo
coisa de família, onde família tal brigou com a família tal etc, ora,
tenha santa paciência!? Família tem que ter um projeto político. ... Nos
Estados Unidos eles quebraram isso no século XIX, quando quebraram
todos os monopólios. O Teodore Roosevelt quebrou o monopólio do aço, foi
quebrado o monopólio dos transportes, o monopólio do petróleo do
Rockefeller foi quebrado.
OP – Essa quebra de monopólio o senhor acha que vale para as estatais brasileiras?
DaMatta
– Claro que vale. É só ver o que está acontecendo com a Petrobras, você
acha que está todo mundo feliz com a Petrobras? O povo está feliz com a
Petrobras? Uma empresa que é orgulho nacional, hoje totalmente
centralizada, stalinizada, onde os membros do partido mandam nos
engenheiros. Uma quadrilha foi colocada lá e está destruindo a empresa.
Eu estou satisfeito com isso? Claro que não posso estar!
OP – Especialmente no aspecto da ruptura, a chegada do PT ao poder pode ter sido uma oportunidade histórica que o Brasil perdeu?
DaMatta – Concordo com a pergunta. Você perguntou e respondeu. É claro que perdeu.
OP – O que teria levado a isso, na opinião do senhor?
DaMatta
– A mudança social, isso eu aprendi na antropologia, estudando
sociedades tribais, mudar, tanto pessoalmente como coletivamente, é
muito difícil, não é um processo que se consegue fazer facilmente. E
nossa ideia de mudança é muito superficial porque vivemos em um
Continente no qual as mudanças praticamente não ocorreram desde Dom João
‘Charuto’ e desde Simon Bolívar, que ia proclamando Repúblicas em tudo
quanto era país... Há uma certa ingenuidade de se achar que seja fácil
mudar, não é. Além do quê, o projeto do PT não era um projeto de
modernização.
OP –
A gente tem vivido, nos últimos anos, um mundo muito agitado, com
grandes manifestações e protestos de ruas em várias cidades e países.
Que momento é esse que enfrentamos?
DaMatta
– Não sei. Não sou especialista em mundo, na verdade, meu conhecimento
de tudo é jornalístico, livresco, superficial. Então, não posso dar
opinião sobre o mundo. Dou algumas opiniões, erradas, sobre o Brasil.
OP – Sobre o Brasil, então, o que é que levou aquelas multidões às ruas?
DaMatta
- Do meu ponto de vista aquele movimento foi uma expressão de um
conjunto de eventos que estavam acontecendo, percebidos por segmentos da
sociedade brasileira, sobretudo segmentos altamente urbanizados, que
tinham a ver, em primeiro lugar, com a imobilidade absoluta de uma
pessoa que ocupa o papel mais importante numa democracia liberal, que é o
papel de presidente. Uma mulher incapacitada para desempenhar o papel,
lamento falar isso. Uma pessoa que não fala coisa com coisa, que não tem
liderança, que se esconde. Aconteceu outro fenômeno, numa contradição
entre o quê diziam os jornais sobre investimentos Fifa e os
investimentos no Rio de Janeiro, com dois grandes eventos...
OP – Copa do Mundo e as Olimpíadas.
DaMatta
– Pois é, que foram patrocinados pelo próprio presidente da República
na época, o Lula. Aceitou, ficou feliz, deu pulo, parecia a Ivete
Sangalo ao lado do Sérgio Cabral (governador) e do Eduardo Paes
(prefeito), tudo bem. Uma certa onipotência, mas o certo é que você não
tem recursos para fazer. E o que aconteceu? Passou-se a cobrar escolas
com o tal padrão Fifa, um padrão de segurança tipo Fifa, porque em
algumas cidades, não sei o caso de Fortaleza, mas no Rio de Janeiro as
pessoas estão sendo esfaqueadas e não tem polícia, a polícia só aparece
depois dos fatos. No Rio de Janeiro tem sido assim. Outro ponto foi a
infantilização do povo pelo próprio PT, que ainda continua falando em
luta de classes não o quê, quando você tem que introduzir isso em lutas
concretas. Como a luta de classes se traduz em coisas concretas? Na
ausência de escolas, em jovens abandonados, no ensino primário que é
absolutamente pornográfico, é vergonhoso. Hospitais que não dão vazão a
quem é pobre. Para onde está indo esse dinheiro todo? Os movimentos
sociais são reação a tudo isso, com uma característica interessante:
eles não têm o domínio, a hegemonia, de um partido. São movimentos com
um envolvimento muito grande, até radical, de individualização, de
opiniões próprias. Tem gente que aparece com um cartaz falando de
escola, outro com um cartaz falando de hospital, outro fala em
feminismo, e a bandeira nacional aparece, ao invés de ser uma bandeira
vermelha. A bandeira vermelha é a bandeira do PT, ou estarei sendo
exagerado?
OP – O movimento iniciou-se com aqueles protestos pelo aumento nas passagens de ônibus.
DaMatta – Claro, também.
OP
– Pois é, mas o entendimento do senhor é de que esses movimentos que
aconteceram mais recentemente são uma continuidade de tudo aquilo? Quais
as diferenças e as semelhanças?
DaMatta –
Meu querido amigo. Eu teria que fazer um estudo desse movimento, o que
não fiz. Acho que existem elementos de continuidade, sobretudo em
relação ao silêncio do Executivo, um silêncio gritante, e também há
elementos de descontinuidade, porque depois das eleições ficou um evento
em que as pessoas que perderam, aquelas que votaram no Aécio (Neves),
ficaram inconformados. Não é o meu caso, mas ficaram inconformadas. Tem
gente que diz que a eleição foi roubada etc, a diferença, realmente, foi
muito pequena; a apuração me deixou um tanto quanto insatisfeito,
porque a parte do Norte do País apareceu depois; o presidente do
Tribunal Superior Eleitoral é um senhor chamado (Dias) Toffoli, que era
secretário do José Dirceu, então, quem pensa um pouquinho sabe que a
gente deve favores uns aos outros. A gente sabe que essas relações no
Brasil são importantes e o Toffoli comandou essa eleição...Quem não é
completamente tapado sabe que o Supremo Tribunal Federal está todo
nomeado pelo PT.
OP – Mas, não foi neste STF que deu-se a condenação dos envolvidos com o caso do mensalão?
DaMatta – Sim, porque tinha um sujeito chamado Joaquim Barbosa. Com o (Luis Roberto) Barroso não iriam condenar.
OP – Barbosa foi nomeado no governo do PT.
DaMatta
– Sim, sim. Barbosa foi nomeado pelo Lula para ser o primeiro ministro
negro do STF, mas a gente às vezes não tem cálculo. As coisas também
acontecem, veja bem, o mundo não é completamente determinado. Você
perguntou inicialmente sobre como é o Brasil hoje. O Brasil é um país
curioso e, agora, vou tocar numa questão delicada: maioridade penal. Sou
contra que baixe, devo dizer isso claramente. Entretanto, acho que há
uma discrepância entre a realidade política, a idade de votar, e a
penal, porque se você pode votar com 16 anos... E que tal se baixarmos
para 14 anos o direito de votar? Você toparia? Posso inverter aqui e
fazer essa pergunta? Toparia botar para dez anos? O que quero dizer, o
ponto que quero enfatizar, é que se trata de um País que, em virtude
dessa matriz da qual falei, de aristocracia combinada com
republicanismo, possui várias incongruências e uma delas é o excesso de
polícias, o que facilita a vida dos bandidos. Há muitas instituições,
muitos tribunais, muitas leis que não foram revogadas, se sobrepõem, o
que dá margem a quem é condenado por algum crime e que indiscutivelmente
deveria estar preso, acaba não sendo preso, devido às várias
instâncias. Isso é que a crise brasileira de hoje se configura. É um
sistema cheio de contradições, a começar por esse aspecto em que uma
pessoa com 16 anos pode votar, mas, com estes mesmos 16 anos não pode
ser condenado. É uma contradição, embora eu, pessoalmente, não seja
favorável a diminuir a responsabilidade penal. Por quê? Porque os
presídios são uma porcaria, o que me leva a uma pergunta: o PT está
governando há doze anos e onde é que estão as penitenciárias? Por quê
não se fala num sistema prisional minimamente decente, se é um governo
que cuida do povo, que quer esse povo educado, politizado? É uma
pergunta que deixo no ar. Por quê isso não melhorou? Doze anos! Não são
doze dias.
OP – O quadro político atual preocupa, diante de tanta instabilidade e incerteza?
DaMatta
– Vivemos hoje uma situação institucional delicada, com uma presidente
da República que não fala, não abre a boca, tem um Renan Calheiros que é
um Pelé, um craque da política, embora possamos discutir as posições
dele. O fato é que você pode colocar uma bomba atômica na frente dele,
prestes a explodir, e ele permanece ali com a mesma calma. E o Eduardo
Cunha é um D'Artagnan, um Richelieu da política brasileira, ele se
antecipa ao inimigo e vai em cima. Ou seja, o quadro é complexo e só
falta, agora, ter um problema também no Supremo, com os tribunais
federais. É uma situação que tem a ver, insisto, novamente, com essa
conjunção, que nem sempre é harmoniosa, entre estruturas que dependem de
valores republicanos, que tem a ver com mobilidade, que tem a ver com
‘eu não posso ser campeão’ o tempo inteiro, não posso ganhar toda
eleição.
OP – Uma
pergunta sobre modelo político, professor: o senhor concorda, no mérito,
com propostas de implantação do distritão e do financiamento privado?
DaMatta
– Concordo, já escrevi sobre isso, com todo financiamento de campanha,
menos o financiamento exclusivamente público. Acho que quem quiser dar
10 mil reais para um candidato e um partido de quem goste, que seja meu
amigo, seja meu irmão, tem que ser livre. As consequências depois você
paga e o importante é que existam os mecanismos para coibir os exageros.
E que estes mecanismos sejam usados de maneira honesta e digna, o que
nós não fazemos, este é o grande problema. A verdade é que nem o nazismo
sobreviveria no Brasil. Do Renato Duque??! Não sobreviveria. Com essa
turma da Petrobras? Precisaria de muita bala de prata do Stalin para
matar esse povo. Você não pode ser chefe de família roubando sua própria
mulher, roubando o País, cara? Sabe qual é a minha revolta? Meu avô era
desembargador, meu pai era fiscal de consumo, eu sou um professor
universitário e se somar o dinheiro de nossa família toda não dá um
décimo do que esses canalhas ganharam em um contrato. Isso é uma coisa
que me revolta! Sou um cara honesto, escritor, nunca pedi favor a
ninguém, até hoje não peço, não puxo o saco, então, acho isso
revoltante. A escala desse negócio é alarmante.
OP – O que parece tentar simplificar demais o problema, professor, é a ideia de que a corrupção nasceu com o PT.
DaMatta – Concordo. A corrupção, enquanto você tem sociedade vai ter corrupção.
OP
– O senhor que já morou fora do País e acostumou-se a ver de que forma o
mundo olha o Brasil, considera que a ideia do brasileiro como cidadão
cordial, amigável etc está afetada pelo mau humor interno que aumentou
muito nos últimos tempos?
DaMatta
– Vou responder como antropólogo, sociólogo: nenhuma sociedade humana
pode ser caracterizada por um traço só, eventualmente até ela se
manifesta através de um traço só. Veja a Europa, que teve duas guerras
mundiais, as duas foram entre Alemanha, França e Inglaterra. Por isso
você vai dizer que os alemães, ingleses e franceses se odeiam
eternamente? Não, não é verdade. Então, essa coisa do brasileiro ser
cordial, tem agora essa história do (Manuel) Castells, não é. O que acho
é que a visão de Castells mostrou falta de um refinamento sociológico
muito grande, porque você é contra mim numa certa situação, mas em outra
nós dois estamos juntos contra alguém. Em outra situação pode ser que
estejamos juntos eu e este alguém contra você. Isso acontece a todo
momento. Agora, há situações nas quais se você reproduz, repete, acaba
tendo um conflito maior. Então, essa ideia do estereótipo brasileiro
como cidadão cordial é verdadeiro. Agora, o brasileiro também é
violento, mas você diz: quem é o cordial, finalmente, é o brasileiro de
classe média como nós, que temos a felicidade de poder ter uma casa, que
podemos receber os amigos com um uísque, uma comida local, uma certa
cordialidade, ou é um violento, um sujeito pobre, que não tem
oportunidade nenhuma, que a ideia dele de subir na vida é ser celebre, e
usa uma faca para matar um ciclista na lagoa Rodrigo de Freitas, no
Rio, ou matar um turista belga na praia em Fortaleza? Você diz, então,
que o Brasil, por isso, é violento, mas a verdade é que as duas coisas
coexistem. O Castells tinha a obrigação de dizer o que está pensando
quando afirma que o brasileiro não é cordial! Você tem as situações, e
segmentações de acordo com cada situação, que são diferentes. O Brasil é
o país do carnaval, por exemplo, na época do carnaval. É mais ou menos
por ai que ele quis dizer. Essa situação levantada pelo Castells nos
remete muito à situação do futebol, onde há uma certo entendimento comum
de que os brasileiros são os melhores jogadores do mundo, mas a seleção
perdeu de 7x1 para a Alemanha na Copa. Situação do futebol que tem
muito a ver com a política, uso muito esse argumento: se você tem um
partido que quer ganhar sempre as eleições, que não admite que errou,
que não faz o mea culpa, que não faz um exame de consciência, com
honestidade, com boa fé, como penso que aconteça com o PT, é como um
time de futebol que não quer perder o campeonato. Por isso é que nas
democracias temos um problema sério, que muita gente não gosta, e o
socialismo atrai muita gente... Primeiro porque o socialismo tem o
salvacionismo utópico, nós vamos resolver todos os problemas etc o que
atrai muita gente, sobretudo jovens. Segundo lugar é que uma vez
estabelecido o socialismo as regras são tão claras e tão duras que você
não tem que mudar mais nada, enquanto a democracia é um trabalho diário.
É como um casamento, tem que casar todo dia, senão acaba. É preciso
todo dia renovar o casamento, de alguma maneira, seja com gestos de
carinho, através de mil coisas, cada um sabe de sua vida.
OP
– O senhor vê a democracia ameaçada no Brasil, de alguma maneira? Pelo
contexto geral, não apenas por essa postura do PT? Por exemplo, nas
manifestações de rua mais recentes há grupos clamando abertamente por
uma intervenção militar.
DaMatta
– Todas as democracias são ameaçadas. Sabe por quê? Porque são
democracias. É o único sistema político parecido com o próprio homem,
você pode se suicidar, eu posso me suicidar, qualquer um pode se
suicidar, nós podemos nos destruir, com bebida, com doença, com falta de
cuidado, e a democracia parece muito com isso. (Winston) Churcill
dizia: é o melhor entre os piores sistemas políticos, porque tem um
movimento interno que de quatro em quatro anos, de cinco em cinco,
dependendo do país, se renova.
OP – No Brasil, a gente pode dizer que ela tem se tratado bem?
DaMatta
– Ela tem se renovado, tem se renovado. Embora, ultimamente, eu tenha
andado muito decepcionado com o partido que domina a política
brasileira. E acho que não estou sozinho, bastando ver os índices de
aprovação do PT e da dona Dilma (Rousseff), além do que tem acontecido
com os petistas celebres quando vão às ruas, em restaurantes, aviões
etc.
Fonte:
https://www20.opovo.com.br/app/opovo/paginasazuis/2015/06/29/noticiasjornalpaginasazuis,3461514/roberto-damatta-o-antropologo-explica-o-brasil-e-critica-o-pt.shtml
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